As áreas que mantiveram cultivo contínuo de uma única espécie apresentaram desempenho mais fraco e oscilações expressivas de um ano para outro: as variações nas safras chegaram a oscilar entre 33% e 39% e a produtividade ficou próxima da média estadual, com apenas 8% de vantagem.
O que foi testado
Os sistemas mais complexos combinaram culturas comerciais (soja, milho, trigo e canola) com uma variedade de plantas de cobertura, entre gramíneas, leguminosas, dicotiledôneas de decomposição rápida e brassicáceas. Nas áreas com essa diversificação, os pesquisadores observaram colheitas mais estáveis e ganhos que chegaram a 76% acima da média estadual.
Como a pesquisa foi feita
O estudo reuniu dados de 13 experimentos conduzidos por agricultores em propriedades comerciais e comparou desempenho das lavouras ao longo de três safras marcadas por extremos climáticos. Os cientistas usaram dados climáticos por satélite para quantificar as chuvas e isolar o efeito do clima sobre os resultados.
Foram coletadas 78 amostras de solo na camada de 0 a 10 cm em propriedades distribuídas pelo estado. Os pesquisadores mediram 12 características do solo, agrupadas em frentes química, física e biológica, e sintetizaram esses indicadores em quatro funções de saúde do solo: regulação bioquímica, suporte físico, armazenamento de água e estocagem de carbono.
Principais descobertas
As análises mostraram que a diversificação vegetal aumentou significativamente a capacidade do solo de armazenar água, independentemente do teor de argila. Segundo o vice-coordenador do CCARBON, Maurício Roberto Cherubin, a explicação está na estruturação biológica promovida pelas raízes e pela atividade microbiana: raízes profundas criam bioporos que facilitam o trânsito de ar e água e ajudam a acessar umidade em camadas mais profundas durante secas.
Cherubin explicou que manter plantas vivas e cobertura vegetal o ano todo mantém os organismos do solo ativos, melhora a ciclagem de nutrientes, a fixação biológica de nitrogênio e a disponibilidade de fósforo para a cultura principal.
Limites e impactos
O estudo também revelou limites: eventos extremos podem forçar mudanças no manejo. Durante as enchentes de 2024, 44% dos agricultores que adotavam a diversificação precisaram abandonar plantas de cobertura e semear trigo comercial para tentar recuperar perdas.
Os autores justificam a escolha do Rio Grande do Sul pelo papel estratégico do estado na produção brasileira — ele responde por 8,4% da produção nacional de grãos e reúne 6,8 milhões de hectares de soja, equivalentes a 14,4% da área plantada com o grão no país — e por sua alta exposição a secas e enchentes recentes.
Os resultados do trabalho foram publicados em 22 de outubro na revista Agriculture, Ecosystems & Environment e apresentados por Cherubin em evento da FAPESP.



