O estudo, publicado na revista PNAS em 2 de novembro, afirma ser o primeiro a usar análises químicas in situ para identificar assinaturas de heme em ossos de dinossauro e relacionar esses sinais às microestruturas preservadas dentro do material fossilizado.
O que encontraram
Os pesquisadores examinaram ossos dos membros de Aratasaurus museunacionali, um theropoda de pequeno porte do Cretáceo, e identificaram numerosas estruturas microscópicas dentro de canais vasculares — os condutos que originalmente alojavam vasos sanguíneos. A morfologia, o tamanho e a localização dessas estruturas foram consideradas compatíveis com glóbulos vermelhos.
Além das imagens microscópicas, as análises químicas detectaram compostos relacionados ao heme, o componente que contém ferro e integra a hemoglobina. Os autores também reportaram a presença de aminoácidos associados ao colágeno, proteína estrutural do osso.
Como pode ter sido preservado
Os cientistas propõem que a preservação decorreu de enterramento rápido em sedimento em ambiente com baixo oxigênio, possivelmente coberto por tapetes microbianos (biofilmes). Nesses cenários, a mineralização precoce teria replicado ou estabilizado estruturas biológicas antes da destruição completa.
Em particular, as microestruturas foram mineralizadas com hausmanita, um óxido de manganês (Mn3O4), e a equipe sugere que essa mineralização ajudou a conservar a forma original e parte da química associada às células.
Métodos
Os autores combinaram técnicas de microscopia, análises mineralógicas e geoquímica molecular, realizando investigações químicas diretamente no interior do osso fossilizado (in situ). Entre os métodos usados está a espectroscopia Raman de ressonância, citada como parte da abordagem analítica.
Críticas à interpretação
Nem todos os especialistas concordam com a conclusão de que as microestruturas são restos de glóbulos vermelhos. A pesquisadora Mary Schweitzer, que estuda tecidos fósseis, afirmou que as formas observadas não coincidem claramente com os glóbulos esperados em répteis e aves, que costumam reter núcleo e apresentar um calombo nuclear característico. As estruturas reportadas aparecem mais côncavas, sem esse bulbo, e menores do que a maioria dos glóbulos não mamíferos, segundo a crítica.
Os autores, por sua vez, defendem que a combinação de evidências morfológicas, mineralógicas e químicas — incluindo sinais de heme — dá robustez à interpretação de que se trata de material sanguíneo alterado pela fossilização.
O debate ilustra tanto os avanços das abordagens moleculares aplicadas a fósseis quanto os limites atuais de interpretar formas e assinaturas químicas preservadas ao longo de milhões de anos.



