Levantamento nos sistemas da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e em registros de cartório indica que empresas ligadas a Willer Tomaz registraram aquisições em ilhas de Angra dos Reis com valores patrimoniais oficiais.
Quais imóveis foram comprados
- Ilha Comprida — terreno de 175,2 mil m², comprado pela WT Administração de Imóveis e Bens em setembro de 2021; valor patrimonial registrado: R$ 5,7 milhões.
- Ilha Comprida — terreno de 32,8 mil m², comprado pela WT em setembro de 2021; valor patrimonial registrado: R$ 2,1 milhões.
- Ilha Comprida — terreno de 181,8 mil m², comprado pela WT em setembro de 2021; valor patrimonial registrado: R$ 6 milhões.
- Ilha Comprida — terreno de 2,1 mil m², comprado pela WT em julho de 2022; valor patrimonial registrado: R$ 2,9 milhões (imóvel que foi disputado com Richarlison).
- Ilha do José André — terreno de 57,3 mil m², adquirido pela Friponor Brasil Turismo, Empreendimentos e Participações em 2008; valor patrimonial registrado: R$ 23,7 milhões.
Além desses, Tomaz figura como detentor de cotas (25%) de outra casa na Ilha do Jorge, registrada em nome da empresa Real Estate Duo 4, ligada ao grupo Prime You.
Disputa com Richarlison
A rivalidade pública sobre uma casa na Ilha Comprida chamou atenção para a sequência de processos administrativos. A empresa Sport 70, do jogador Richarlison, pediu a regularização do uso do imóvel em 20 de setembro de 2021, mas o processo não avançou. Em contrapartida, a movimentação que levou o direito de ocupação à WT Administração de Imóveis teve início em 5 de maio de 2022, quando a M Locadora de Veículos solicitou regularização de ocupante.
No dia 11 de julho de 2022, a M Locadora pediu à SPU a emissão de Certidão de Autorização para Transferência (CAT) às 11h33; o documento foi registrado pela SPU às 13h13 do mesmo dia, e em seguida o imóvel foi transferido para a WT. Fontes ouvidas pela reportagem apontam a diferença de celeridade entre os processos como elemento controverso da disputa administrativa.
Parlamentares pediram ao Supremo Tribunal Federal que investigue a disputa no mesmo inquérito que apura relações entre Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro; o caso tem relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Tomaz e Flávio dizem ser amigos, mas negam negócios em comum. Tomaz sustenta que Richarlison teria pago posseiros e apresenta escrituras, certidões da SPU e decisões judiciais favoráveis.
Projeto de resort
Em 2026, Tomaz apresentou ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) um pedido para ampliar obras na Ilha do José André — dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios — visando um resort de luxo com beach club, spa, restaurante, hangar e heliponto. O pedido foi protocolado em 20 de março de 2026, mesma data em que o então governador Cláudio Castro publicou um decreto que revogava planos de manejo. O decreto foi posteriormente derrubado pelo desembargador Ricardo Couto e o empreendimento não avançou. Castro afirmou que não discutiu a medida com Tomaz.
Propostas legislativas relacionadas
No mesmo período em que as compras foram registradas, o senador Flávio Bolsonaro apresentou projetos que mexem no marco legal das ilhas: em outubro de 2021 propôs a criação de uma Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento Sustentável (Rides) para a Costa Verde, com autorização para municipalizar unidades de conservação, e foi relator, a partir de abril de 2022, da chamada PEC das Praias no Senado, que prevê excluir trechos da lista de bens da União e permite, na prática, privatizações por ocupantes. Em setembro de 2024 a SPU publicou nota técnica contrária à PEC, afirmando que o texto favorece a grilagem da costa.
Tomaz mudou-se para os Estados Unidos em agosto de 2026 após ser alvo de operação da Polícia Federal. Flávio Bolsonaro foi para a Flórida dois dias depois de sua derrota no segundo turno da eleição presidencial.



