Projeções usadas por bancos e plataformas de previsão indicam vantagem democrata para a Câmara e uma disputa mais acirrada pelo Senado. O modelo do The Economist, adotado pelo BTG Pactual, projeta 239 cadeiras para os democratas e 196 para os republicanos na Câmara; o Polymarket atribuía cerca de 92% de chance à vitória democrata na disputa pela Câmara.
Na corrida pelo Senado, o BTG estima 51 cadeiras para os democratas e 49 para os republicanos, contabilizando 91 vagas praticamente definidas e avaliando nove disputas-chave; as probabilidades de maioria democrata variam entre cerca de 65% e 72%, conforme diferentes modelos e cotações.
O que uma 'onda azul' muda
Economistas consultados dizem que uma vitória democrata em ambas as Casas reduziria o espaço do presidente para aprovar medidas econômicas e ampliaria a fiscalização do Executivo. Se os democratas controlarem o Senado, também terão maior influência sobre a confirmação de indicados presidenciais para cargos em agências e tribunais.
- Democratas nas duas Casas: controle da pauta legislativa, com comissões mais ativas na fiscalização e maior capacidade de bloquear indicações presidenciais.
- Vitória apenas na Câmara: maior dificuldade para aprovar projetos e liberar gastos, mas o Senado republicano ainda poderia influenciar nomeações; o presidente manteria o poder de veto.
Como as midterms afetam o Brasil
As eleições influenciam o Brasil principalmente por duas vias: os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA e a cotação do dólar. Decisões do Congresso sobre gastos e impostos moldam as expectativas sobre as contas públicas americanas; se essas expectativas piorarem, os juros pagos pelos títulos dos EUA podem subir.
Quando os títulos americanos oferecem retornos maiores, investimentos tendem a migrar para os EUA, reduzindo o fluxo para mercados emergentes como o brasileiro, o que pressiona o dólar para cima frente ao real e eleva as taxas de juros negociadas para períodos futuros no Brasil, afetando custo de crédito e expectativas sobre a Selic.
Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, afirma que uma vitória republicana nas duas Casas daria mais espaço a cortes de impostos e desregulamentação, o que, se ampliar o déficit, poderia pressionar inflação e juros de longo prazo nos EUA e, por tabela, o dólar e os juros futuros brasileiros. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, destaca que o desgaste do presidente está ligado à insatisfação com o custo de vida, e que a retomada de ao menos uma Casa pelos democratas já seria suficiente para dificultar a agenda legislativa.
O efeito sobre a bolsa seria desigual: exportadoras podem se beneficiar de um dólar mais alto, mas o avanço dos juros e a redução da liquidez tornam setores mais endividados, como varejo e construção, mais vulneráveis.
A relação entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva também é vista como fator de risco. Especialistas ouvidos apontam que uma composição do Congresso favorável aos republicanos pode ampliar atritos comerciais e a adoção de tarifas, enquanto uma oposição mais forte poderia frear medidas mais agressivas. O governo americano pode usar dispositivos como as Seções 232 e 301 para impor tarifas — instrumentos já acionados no passado contra produtos brasileiros — embora decisões da Suprema Corte tenham barrado medidas baseadas na IEEPA.
Após oscilações durante a eleição presidencial brasileira, a cotação do dólar voltou à faixa dos R$ 5,40; analistas destacam que a valorização global do dólar, impulsionada por expectativas de alta de juros nos EUA, tem afetado moedas de diversos emergentes, e as midterms podem ampliar essa volatilidade conforme o resultado for confirmado.



