A dramaturgia é assinada por Fábio Espírito Santo e a direção por Ana Paula Bouzas; a direção musical ficou sob João Milet Meirelles e Ronei Jorge. O texto parte do cordel "De cantor pra Cantador" (2018) e organiza cerca de 40 composições em episódios não lineares que servem tanto aos momentos íntimos quanto aos trechos de festa.
A encenação personifica o artista por meio de figuras do cordel e do imaginário baiano: Rodrigo Sestrem vive o Poeta Cantador, que comenta a ação como um coro moderno, e Cris Meirelles interpreta o Vaqueiro do Som, símbolo da travessia artística e geográfica do protagonista. Júlia Tizumba aparece como Musa Música, voz central em números como "Mulher e cidade – Marília".
A narrativa demora a engatar na primeira meia hora, quando a poesia em cordel chega a travar um pouco o andamento. Aos poucos, porém, o espetáculo ganha tração até culminar numa sequência final de forte impacto, com um Trio Elétrico em cena que transforma o palco num Carnaval e amplia a interação com a plateia.
Repertório e destaques
- "Double morse" (tema instrumental de 1975) e sua versão com letra, "Pombo correio" (1977).
- Canções menos conhecidas, como "Desabafo e desafio" (1975), contrapostas a sucessos como "Chão da praça" (1978) e "Sintonia" (1987).
- Momentos com os Novos Baianos: "Swing de Campo Grande" (1972) e trechos de "Acabou chorare" (1972); "Preta Pretinha" aparece apenas na gravação do disco.
- Referências variadas: influência de Luiz Gonzaga representada em cena com "Forró do ABC" (1980) e influência do rock em "Loucura pouca é bobagem" (1975).
- O número final, com versão em pagodão de "Chame gente" (1985), imprime tom festivo e contagiante ao encerramento.
A montagem privilegia cor e festa: a direção de Bouzas explora teatralidade inventiva e a coesão do elenco — que inclui Diana Ramos, Luisa Muricy, Mano Leone, Marcos Lopes, Nana Nevez, Ofámirô, Rapha Gouveia, Sabiá e Saulo Ilogoní — sustenta a transição entre cenas narrativas e sequências musicais. Kadu Veiga interpreta uma versão caricatural de João Gilberto em uma passagem que traz a obra dos Novos Baianos em diálogo com a bossa.
A direção musical respeita o espírito das gravações originais, mas não teme adaptações: o toque de pagodão no final sinaliza que a música de Moraes Moreira segue viva e pronta para animar o Carnaval. A crítica avaliou o espetáculo com a cotação ★ ★ ★ 1/2, destacando seu desfecho apoteótico.
O resultado é um musical que, mesmo com início irregular, se revela vivaz e celebratório na reta final, reunindo repertório, espetacularidade e uma leitura poética da trajetória do artista.



