A análise de dados de longo prazo mostra alterações climáticas significativas na região: a precipitação anual caiu cerca de 8% e, no pico da estação seca (agosto a outubro), a redução chegou a 20%. A temperatura média anual aumentou 1,13 °C e a elevação na estação seca foi de 1,81 °C.
Como foi o estudo
Os pesquisadores usaram 15 anos de medições atmosféricas de carbono (2010–2024), conduzidas por voos e por análises no Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe, combinadas com dados de desmatamento, queimadas, precipitação, temperatura do ar e indicadores da superfície do mar. O trabalho foi publicado em 21 de outubro de 2026 na revista Nature e recebeu financiamento da Fapesp e de outras instituições.
Principais resultados
- As queimadas foram identificadas como a principal fonte de emissões: cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, em média.
- A capacidade de absorção da vegetação ficou em torno de 300 milhões de toneladas de CO₂ por ano.
- A análise por cenários mostrou que, nos períodos com maior desmatamento e secas, o balanço médio de carbono alcançou 1,58 a 1,8 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, transformando a Amazônia de estocadora em fonte líquida de carbono.
- Descontadas as emissões das queimadas, a troca líquida de carbono da vegetação permaneceu próxima da neutralidade, o que deixa pouca margem para compensar os gases liberados pelo fogo.
Segundo a coordenadora do LaGEE do Inpe, Luciana Vanni Gatti, a principal mensagem é que a ação humana responde pelo problema: o modelo de desenvolvimento baseado na destruição está fazendo a floresta perder capacidade de se manter. Ela afirma que é necessário adotar políticas que valorizem a floresta em pé.
O estudo também relaciona degradação e desmatamento a um ciclo de retroalimentação: perda de vegetação reduz chuvas e eleva temperaturas, favorecendo novas queimadas e ampliando a degradação.
Os impactos já se refletem em saúde pública e serviços: nos primeiros dez meses de 2026 houve mais de 41.300 focos de incêndio (58% concentrados em setembro e outubro), quase igualando os 43.130 registros de todo o ano anterior. A fumaça densa cobriu municípios do Amazonas, especialmente Manaus, levando à suspensão de aulas, à sobrecarga de unidades de saúde por problemas respiratórios e à investigação de possíveis crimes ambientais.
Próximos passos e financiamento
O grupo continua a pesquisa, incluindo uma fase iniciada em 2022 que usa o sulfeto de carbonila (COS) como traçador da fotossíntese para medir melhor a capacidade de absorção das árvores. Os autores destacam a importância de financiamento contínuo para pesquisas de longo prazo, citando apoio da Fapesp e bolsas a pesquisadores envolvidos no estudo.



