Na mitologia representada no relevo do objeto, o rei Licurgo é preso por videiras — cena que dá nome ao cálice e sugere uso cerimonial ligado ao vinho. O corpo central de vidro fica envolto por uma estrutura externa vazada, chamada de “gaiola”, decorada com motivos mitológicos. A peça mede cerca de 16 cm e pesa 700 g.
O artefato está em excelente estado de conservação, mas seu local de descoberta é incerto. Foi adquirido pelo Museu Britânico em 1958, vindo de uma coleção particular que o possuía desde o século 19. Estudos situam a fabricação entre 290 e 325 d.C., possivelmente em Alexandria ou em Roma, e indicam que as aplicações metálicas na borda e na base são acréscimos posteriores, do século 19 ou 1800.
Como funciona o efeito
O vidro apresenta duas aparências dependendo da posição da fonte de luz: quando iluminado pela frente, parece verde-jade; quando a luz atravessa o cálice por trás, mostra um vermelho-rubi. Esse comportamento é causado por partículas metálicas minúsculas incorporadas ao vidro, que alteram a reflexão e a transmissão da luz — absorvendo componentes azuis e verdes na transmissão e favorecendo o vermelho, enquanto a reflexão domina tons esverdeados.
Recriação moderna e pistas sobre a técnica
Em outubro de 2026, uma equipe da Universidade de Sheffield publicou uma receita reprodutível que produz partículas de ouro, prata e cobre com tamanho entre 50 e 80 nanômetros — semelhante às encontradas no cálice original. Para isso, os pesquisadores usaram matérias-primas parecidas com as disponíveis aos romanos e um forno a gás; em seus testes, uma pequena adição de açúcar ajudou a reproduzir a química da atmosfera do forno a lenha.
A equipe observou que o posicionamento da peça dentro do forno influencia o resultado, o que torna o efeito imprevisível mesmo com tecnologia moderna. Segundo Lisa Hollands, líder do trabalho, o processo não exigiu tratamentos térmicos especiais para formar as nanopartículas: elas se geraram naturalmente quando o vidro derretido esfriou.
Para o arqueólogo Ian Freestone, da University College London, os romanos provavelmente não dominavam o processo: o cálice pode ser fruto de uma combinação de habilidade e sorte, com metais diluídos em lotes maiores de vidro. A presença de ouro pode ter sido impura na prata usada ou proveniente de resíduos na oficina, e os fragmentos sobreviventes variam muito entre si, o que aponta para dificuldades de repetição na antiguidade.
O resultado é que os vidreiros romanos produziram, sem saber, um efeito que hoje classificamos como nanotecnologia: partículas em escala nanométrica responsáveis por uma mudança de cor que continua a fascinar pesquisadores e conservadores.



